Um iceberg de aguapés
Por: Alberto Américo Guerra Grossi
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 10/2009
Onze de junho de 2009. Estávamos no quinto dia de pescaria no Rio Paraguai, em território paraguaio. Fazia frio, o céu estava nublado e o vento sul soprava. Após várias horas sem sucesso, resolvemos pescar com o barco parado e apoiado sobre os aguapés. Éramos três: o piloteiro paraguaio Ramon; Carlinhos, meu irmão; e eu, Betinho. Começamos de mansinho, trabalhando com isca artificial de meia- água, buscando capturar um dourado, uma cachorra ou, quem sabe?, até um pintado, peixe que andava muito sumido de nossos anzóis.
Nos outros quatro dias, a pescaria não tinha sido nada boa. O Carlinhos, por exemplo, um entusiasta munido de todo o seu arsenal, não conseguia disfarçar a decepção. Todos os seus truques, combinações e estratégias eram inúteis. Sua inquieta canhota arremessava sem parar, enquanto eu – olhe só – nem vara tinha! Sou um pescador só de oportunidades mesmo, que não tem nenhum conhecimento sobre o comportamento dos peixes, funcionamento das iscas, ou técnicas de captura em condições variadas. Na gíria, sou o que se chama de “peladeiro que dá sorte”, já que sempre sou agraciado com belos exemplares. Naqueles dias, no entanto, nem a minha sorte estava ajudando.
Em um dado momento, a situação ficou particularmente ridícula: o nosso barco estava com sete varas lançadas. É, sete! Lembrando que eu, o “peladeiro”, estava tomando conta de “apenas” quatro, sendo três montadas com iscas artificiais que ficaram lançadas próximas a mim, e uma tuvira em minhas mãos – o Carlinhos trabalhava com outras duas e o nosso piloteiro com a restante. Uma hora, enquanto me preparava para arremessar jogando a vara para trás, meu irmão fez o mesmo movimento.
Óbvio que, com o choque das duas varas, as sobras de linha de ambas se enroscaram, fazendo um grande “Jassa” – nó, chamado carinhosamente pelo nome do famoso cabeleireiro. E lá fomos nós, eu e o Carlinhos, tentar desfazer aquela confusão, na qual até o Ramon teve que se meter, e que o impediu de perceber que um grande aglomerado de aguapés se desprendeu de algum canto do rio e avançou na direção de nossas linhas e garatéias lançadas. Era um verdadeiro iceberg de aguapés! Consegue imaginar a confusão?
Próximo de nós estava o barco dos colegas Manoelito e Ronaldo Bodinho, que assistiam de camarote àquele show. Eu, desesperado, não sabia se cuidava do Jassa da carretilha ou se manuseava as varas que estavam sendo puxadas para fora do barco. O piloteiro, um banana, pouco conseguia fazer para nos ajudar. Logo, meu irmão e eu começamos a fazer a única coisa lógica: rir. Claro que junto às mais descoordenadas ações e à conversa surreal com os nossos vizinhos:
Carlinhos – Cuidado com a vara. Ela vai quebrar a ponta!
Eu – Qual vara?
Carlinhos – A minha, cacete! Destrava as carretilhas, pô. Ocê tá muito mole.
Barco vizinho – Vocês querem um facão Gurani para cortar o Jassa?
Piloteiro – Precisa recolher linhas.
Eu – Como recolher? Não tem jeito. Tá tudo agarrado, ainda temos dois Jassas e o iceberg continua puxando.
Carlinhos – Ô, piloteiro, faça alguma coisa! Solta o barco, pelo menos!
Piloteiro – Yo estoy muy confuso com tanto enroscos de linhas. Esse tal Jassa és muy difícil. És mejor soltar el barco e pegar os aguapés com a mão. O señor no puede ficar com muitas varas. És muy cru ainda – dizia ele em um portunhol horroroso.
Carlinhos – O outro piloteiro, lá em Cárceres, em 2003, também disse isso para ele quando um jacaré fisgado tomou o molinete e a vara da mão dele e levou para o fundo do rio – e eu ainda tinha que ouvir isso...
A situação era tensa, mas, ao mesmo tempo, hilária. Rimos muito durante todo o processo, que durou uns 40 minutos. Tempo suficiente para sermos alvos de mais chacota do que poderíamos imaginar ao sair para a pescaria.
Enfim, apesar do mico e de passar o dia em branco, meu irmão e eu ganhamos no dia 21/06/09, na reunião dos pescadores após a viagem, a medalha de maior mico da pescaria de 2009. Pode?