O grilo e o Fly
Por: Enio Toledo Moraes
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 09/2009
São 5h30 da madrugada. O sol ainda nem raiou e eu já estou tomando café e pensando em arrumar logo o material de flyfishing. Minha intenção é pescar traíras em uma das partes ainda não poluídas do Rio Paraíba do Sul. De repente, escuto um barulho na varanda: nhec..nhec...nhec... O som vem da cadeira de balanço e isso já faz meu cabelo começar a arrepiar.
Saio e vejo um grilo de tamanho monstruoso pegando impulso na cadeira e pulando para tentar pegar um colibri, preso na teia de uma aranha africana (Thiagus Morcegatus). A teia é tão forte que seria capaz de segurar até um morcego grande. Sem chance para os dois.
Bom, deixo a natureza resolver esta parada sozinha e vou para minha pescaria. No dia anterior vi umas batidas de traíras e lembrei-me do Dito Camargo - barbeiro e pescador dos arrozais de Lorena - que fala toda hora: "Bom pra traíra é lambari vivo – melhor ainda é grilo verde".
Preparei a vara de fly, uma TFO #6 e usando o sistema "droppers” (2 moscas) coloquei um “Deer-Hair-Mouse" (imitação de ratinho) e um "grasshopper" (grilo) atrás.
Usando a técnica de "roll cast" (quando tem árvores atrás) fiz um arremesso de 74 metros e comecei a recolher. Uma traíra pegou na mosca da frente, eu continuo a recolher e de repente escuto um estrondo. Um dourado gigante pegou o grilo e começou a saltar levando tudo correnteza abaixo.
A carretilha pegando fogo e todo o backing (linha reserva) já acabando. De repente, vejo o dourado voando atrás da traíra, correnteza acima. Os dois sem freio acabaram atolados no areão da prainha. Depois 55 minutos de uma dura peleja eu com o coração na mão vou pesar e soltar os dois.
Começo soltando a traíra (pequena - 1,2 Kgs) - e tão logo ela começa a voltar para o rio, o danado do dourado (não deu para pesar pois tinha mais de 15kgs) vai atrás da traíra de novo.
Deixo mais uma vez a natureza resolver a parada e só encontro uma explicação: o dourado era cego e a traíra sua guia nessas águas desconhecidas do Paraíbão.