As traíras do seu Zé
Por: Luciano Oliveira
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 08/2009
Eu, meu cunhado e o primo dele fomos para uma pescaria na famosa fazenda do Seu Zé Lara, na região de Sete Lagoas (MG). Levantamos bem cedo, às cinco horas da manhã, e logo pegamos a estrada ouvindo aquelas músicas sertanejas que todo pescador gosta. Chegamos a fazenda ansiosos prá dar aquela pescadinha. Eu tinha levado minhas melhores iscas, pois sabia que existiam grandes traíras no açude da fazenda.
Ao ver tudo aquilo, seu Zé olhou desconfiado e perguntou:
- Uai,cês pesca é cum esses pexim de prástico?
Usando termos técnicos respondi:
- Olha Seu Zé, eu vou usar um conjunto composto por uma vara de ação média da Shimano, carretilha Cronarch, também da Shimano, linha 0,35 mm bem macia, líder de fluorcarbono, empate de aço com girador e isca artificial da Yozuri.
E ele com aquele sorriso matreiro olhou pra mim e disse:
- Ah bão! - E emendou: - Oia, ieu vô dexá ocês a vontade, pois tenho que tirá o leite das minha vaca. Mais tarde nóis proseia.
Com um dia bem ensolarado, lá fomos nós para o açude. Arrastamos um velho barco de madeira pra lagoa, improvisamos um remo e eu disse para os colegas de pescaria:
- Ramirão, você cuida de remar o barco e você Samuel, vai tirando a água pra gente não afundar. Deixa que o papai aqui cuida de pegar as danadas..
Eu fui na proa, dando meus pinchos e instruções, enquanto os outros dois, com suas varas de bambu se revezavam entre pescar, remar, me xingar, reclamar e tirar a água pra não afundar. Apesar de inúmeras tentativas, voltamos pra sede da fazenda ao fim do dia, de mãos vazias.
E o Seu Zé com o seu sorrisinho matreiro me perguntou:
- E aí Luciano, cumé qui foi a pescaria? Pegô muito? A isca tufuia é boa mermo?
Meu cunhado e seu primo caíram na gargalhada ao verem a minha cara de tristeza. E o Seu Zé continuou:
- Oia, cês toma banho, depois nóis vai jantá e aí nóis cunversa.
Já na mesa de jantar Seu Zé não deixou de dar alfinetadas:
- Cês num fica triste não. Amanhã bem cidim, nóis vai lá na cidade, ieu aproveitu prá resorvê umas cuisinha e mais tarde ieu ensino ocês pescá.
E eu pensei:
- Lá vem Seu Zé tirando mais um sarro comigo. Eu tentei de tudo: trouxe todas minhas iscas matadoras: superfície, meia-água, jigs, Pesquisei na internet, até as dicas dos caras da Revista Pesca & Companhia, eu tentei e nada funcionou. Qual será a técnica dele? O que é que ele faz? Conversamos mais um pouco e fomos dormir.
Cedinho fomos até cidade, voltamos, almoçamos, e eu não agüentava de ansiedade:
- E aí, já vamos pescar Seu Zé?
Ele calmamente responde:
- Carma meu fio, agora nóis vai tirá uma soneca. Ieu ti aviso a hora certa.
Depois de 3 horas intermináveis de ronco, lá vem Seu Zé com um embrulho debaixo do braço e diz:
- Tô prontim. Vamu lá que vo ensiná esses meninu a pescá!
Já no meio do lago, o seu Zé com a maior tranqüilidade, enrola um baita cigarro de palha com aquele fumo de rolo super fedorento. E lá estou eu, sentado com as mãos no queixo, cara de bobo, só observando. Ele da algumas tragadas e com ar de sabedoria solta esta:
- Issu e pra ispantá us musquitu. Pescadô bão tem qui fuma rolão.
Mais umas tragadas,cospe na água e proclama:
- E issu e prá chamá as traíra
Abre o pacote, retira o fumo de rolo fedorento, parte em pequenos cubos, pega a vara de bambu,isca um pedaço no anzol e joga na água.
Eu sem entender patavina nenhuma da cena que presencio, tento perguntar alguma coisa e ele só diz:
- Carma, meu fio!
Passados alguns minutos, a ponta da vara começa a tremer, e eu grito:
- Ferra... Ferra... Ferra... Seu Zé! E ele responde:
- Caaaarma, meninu! Assim ocê trapaia a pescaria, uai! Fica quitim aí, cocê aprendi.
A vara parou de tremer e daí a pouco surge na superfície uma baita traíra cuspindo o fumo. Seu Zé mais que depressa pega um pedaço de pau e dá uma cacetada na cabeça dela. Com a mesma agilidade a joga pra dentro do barco, repetindo o sorrisinho matreiro, continua:
- Noís vai buscá mais uma!
E assim ele repete tudo de novo: pedaço de fumo fedorento no anzol, espera a vara tremer, a traíra sobe prá cuspir o fumo, paulada na cabeça dela , traíra embarcada.Com um sorrizinho matreiro ele solta a pergunta maliciosa após 5 trairões de 10 quilos cada no barco:
- Tá bão ou ocês qué mais!
Leia mais histórias de pescador