Tucunaré de brinco
Por: Edson Queiroz
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 08/2009
Às 3 h de sábado, eu, Dr. Vinagre e Ronaldo partirmos para o Lago Tucuruí, no Pará. Chegando ao nosso destino, descarregamos as tralhas e montamos o equipamento enquanto o piloteiro ajeitava o barco. O dia estava bom, pois não ventava; a água estava limpa e a temperatura certa. Logo após os primeiros arremessos, foi um festival de peixes engatados.
Por volta do meio dia, as ações pararam e decidimos usar iscas naturais. Equipamos nossas varas com bóias de arremesso. Só então percebi que Ronaldo usava uma argola em sua orelha, logo ele que era tão avesso a este tipo de penduricalhos. Curioso, perguntei o que seria aquilo na orelha dele.
Ele me respondeu que sua noiva havia dado de presente e pediu que usasse como prova de amor, já que comprara um par e que cada um deveria usar uma.
Gozações à parte, os tucunarés voltaram a aparecer. Um deles envergou tanto que Dr. Vinagre se assustou e, na pressa de pegar o peixe, para que ele não fosse às tranqueiras, sua vara partiu ao meio. O peixe levou metade da vara, o anzol e mais um bocado de linha. Ficamos loucos para capturá-lo.
Vinagre montou outra tralha enquanto colocávamos novamente as artificiais. Mas, como dizem, a pressa é inimiga da perfeição.
No primeiro arremesso, engatei na argola do Ronaldo, arrancando-a de sua orelha. Felizmente havia um médico em nosso grupo; atracamos na beira para os primeiros-socorros e demos a pescaria por encerrada naquele dia.
Voltamos ao acampamento para comer e descansar. Ronaldo lamentava a perda do brinco e a futura briga que teria com sua noiva por esse motivo.
No outro dia acordamos cedo. Quando o sol começou a tocar a água, já lançávamos nossas iscas.
Arremessei um popper com hélice entre duas árvores submersas. Quando comecei a recolher a isca com toques fortes, ela foi atacada com tamanho furor e energia que eu jamais havia visto. Depois de tirá-lo da pauleira, foi mais meia hora de briga até o peixe dar seu primeiro pulo. Fiquei assustado com o tamanho e mais ainda com o que eu vi em sua boca. Pasmem, amigos: o brinco do Ronaldo!
Depois de muito esforço, embarquei o peixe. Ele pesava cerca de 18 kg, o que me renderia o recorde mundial, se não fosse por Ronaldo.
Quando eu disse que o peixe seria morto, ele ficou nervoso e não deixou isso acontecer, já que o peixe havia salvado o seu noivado. No fervor de seu discurso, lançou o peixe de volta ao lago sem que ao menos ele fosse fotografado. Foi assim que eu perdi o meu troféu e Ronaldo recuperou seu brinco.
O pior de tudo é que sua noiva, ao ver o ferimento em sua orelha, não acreditou e disse que era uma desculpa para não usar o brinco.