O socorro de um lusitano
Por: Nilson Navarro e Ari Felix
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 06/2009
Em um encontro às vésperas de mais uma viagem, o amigo Mirão contou pela milésima vez, que em outra pescaria feita há dois anos no rio Piqueri (MT), fisgou um gigantesco jaú. Porém, depois de 50 minutos de batalha a linha que usava, uma 0,80 mm de boa qualidade, não suportou e quebrou, impedindo que ele visse a cara do bruto.
Com entusiasmo, ele dizia estar mais bem preparado e que, no mesmo ponto, embarcaria o bruto. Estava lançado o desafio. Para isso, Mirão contava com a ajuda de um novato parceiro português, o alegre João “da Lusitana”, que estava ansioso pela primeira pescaria no Pantanal.
Partimos de Jales (SP) e passamos por Cuiabá, Poconé e Porto Cercado. De lá, navegamos em barco-hotel por 114 milhas náuticas. Descemos o rio Cuiabá, subimos o Piqueri, para então chegarmos ao tão esperado pesqueiro.
Levantamos de madrugada e os barcos encontravam-se amarrados em um barranco, onde pescaríamos no profundo poço do Puleiro. Todos se regozijavam com as belas fisgadas e brigas dos valentes jaús, mas ainda nada do gigante.
De repente a profecia do Mirão parecia estar se cumprindo. Com a fisgada, a fricção cantou o hino que os pescadores mais gostam de ouvir e o piloteiro gritava: “é peixe grande, vou soltar o barco”. A adrenalina tomou conta de todos e imediatamente passei minha vara para o piloteiro recolher a linha, enquanto pegava minha filmadora para registrar o delirante reencontro de Mirão e “seu jaú”.
No vai e vem do peixão, a linha, que estava esticada ao limite, enroscou em dois anzóis de nossos companheiros, que tornaram um perigoso obstáculo para o sucesso da captura. Durante a confusão alguém gritou: “Seu João, corte a linha!”. Imediatamente Seu João “da Lusitana”, super empolgado com o que via, na tentativa de socorrer o companheiro, pegou uma afiada faca e quase caindo na água, cortou a linha.
Nesse momento, eu procurava enquadrar o barco do Mirão na minha filmadora e quando consegui fiquei impressionado com a cara de espanto que ele fazia, balbuciando triste e lentamente as palavras:
“Ele cortou a minha linha. Ele cortou a minha linha”.
Ainda não seria dessa vez. Pobre Mirão.