Onça? Onça não! É nóis...
Por: Alberto Américo Guerra Grossi – Professor Pirarara
Foto/Ilustração: Kid Ocelos
Publicado em: 06/2009
O leito do rio Araguaia estava repleto de espertos pescadores, todos guiados por piloteiros experientes, íntimos da natureza e conhecedores de cada canto do rio.
Na bela noite de céu estrelado era possível ver milhares de estrelas. Os pescadores, em silêncio, aguardavam o momento da beliscada fatal. As águas corriam sem pressa, aves emitiam sons sinalizadores, quando de repente escutou-se de longe o esturrar de uma onça.
Rapidamente, o piloteiro disse: "Tá escutando? É uma onça macho". Eu (Professor Pirarara), Dr. Fritz e meu irmão, ficamos curiosos e com os ouvidos aguçados.
Nesse momento, nosso barco capitaneado pelo Negão, acostumado a caçar onças na região, estava bem próximo ao barco do Lara e do Rodrigão que era comandado pelo Doana, também conhecido como Crocodilo Dande devido as suas peripécias com os jacarés, onças, sucuris e outros bichos. O cenário era ótimo.
O Negão passou a levar as mãos à boca e tirar sons abafados muito parecidos com os esturros da onça.
- UUH, UUH, UUH.UH, UH, UH, U, U, U.
De tão parecido em pouco tempo a verdadeira onça passou a responder. Crocodilo Dande também fazia esses barulhos e a onça respondia prontamente. Entre um esturro e outro se pegava uma pirarara baby ou palmito.
Por alguns momentos, a dona onça nos deixou cheios de receios, fantasias e adrenalina. Porém, o tempo passou e chegou a hora de nos recolher. Eram 22 horas, quando partimos, deixando a onça para trás. Íamos em direção da chalana que se encontrava atracada na praia.
No encontro com os amigos, o assunto era um só: a dona onça. Alguns amigos resolveram fazer mais algumas tentativas de pesca pela praia enquanto outros astutos preparavam uma pegadinha noturna para os dois piloteiros conhecedores e pegadores de onças.
Pediram ao Crocodilo Dande para entrar na mata e esturrar como uma onça para assustar os pescadores praianos, que por sua vez já estavam devidamente avisados do que estava para acontecer. O esperto Crocodilo Dande parecia que estava farejando a brincadeira e não topou fazê-la. Então a tarefa sobrou para o Negão, grande esturrador, cafuzo, nativo, valente, que não vacilou e topou passar o susto na moçada que pescava na praia do rio.
Acompanhando o Negão estava o Edwaldo, um dos articuladores da brincadeira. Na praia estavam vários pescadores entre eles o Tenente 21 Hamilton e o Tenente 22 Lara, também idealizadores da brincadeira.
Já na mata o Negão começou a esturrar: "UUH, UUH, UUH, UH, UH, UH, U, U, U". Edwaldo estimulava-o a repetir várias vezes.
Na praia, comandados pelos tenentes, os pescadores falavam assustados que era onça nas proximidades. Enquanto na mata o Negão fazia movimentos no mato para gerar ruídos e barulhos, simulando o movimento do bicho.
Alguns desavisados ameaçavam caminhar rapidamente para a chalana. Os tenentes diziam: "essa onça tá próxima e é das grandes". Outro gritava: "vou embora".
Na mata, o Negão percebendo a reação de medo dos pescadores melhorou ainda mais a sua imitação, esturrando ainda mais forte e fazendo movimentos no mato. Estava excitante. Negão não se continha e ria ao ver os pescadores borrando pelas pernas abaixo.
Mais uma vez ele esturrou: UUH, UUH, UUH, UH, UH, UH, U, U, U.
Na praia, imediatamente o tenente 21, Hamilton, elevou a voz dizendo:
- Eu não tenho medo de onça, onça comigo é na bala.
Sacou o “berro” do 38, disparando para cima.
Ai aconteceu a grande surpresa, o Negão perdeu toda sua valentia e saiu da mata muito rapidamente se arrastando na areia e gritando:
- Onça não, onça não, é nóis, é nóis.
Rastejando rapidamente pela areia e gritando, ele ficou irreconhecível: parecia um bife a milanesa de tanta areia no corpo.
O coitado do Negão virou um gatinho e teve que suportar muitas gozações de todos piloteiros e pescadores.
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